quinta-feira, 24 de novembro de 2016

POBRE RIO DE JANEIRO

Cabral está na cadeia e Garotinho no hospital, mas Crivella vai entrar em ação
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“Deveria ser murada como Jerusalém”.
(Marcelo Crivella, prefeito eleito do Rio, ao revelar a ideia que teve para evitar a entrada de armas e drogas na cidade que governará a partir de janeiro de 2017, reafirmando que, no Brasil, o que está péssimo sempre pode piorar)*

(*) Blog do Augusto Nunes

MAIS DOS MESMOS

O déficit de verdade de Temer

Ele disse que encarar a verdade é difícil, delicado, complicado e desagradável, e o pior é que tem razão
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Michel Temer foi à reunião do Conselhão e disse que o governo de Dilma Rousseff vivia com um “déficit de verdade”, com “tentativas de disfarçar a realidade”. Estava num cenáculo onde 96 notáveis enfeitavam um evento inútil. Pela sua composição e pelas normas do seu funcionamento, esse conselho seria mais produtivo se fosse incorporado à escola de samba Mangueira, desfilando logo depois das baianas (70 figurantes). Elevaria a taxa de celebridades do desfile e daria mais notoriedade aos passistas. Estava vazia a cadeira do ministro Geddel Vieira Lima.
Temer fez um discurso pedestre informando que “a comunicação é fundamental”. No melhor estilo do cerimonial de Brasília, citou nominalmente 26 ilustres autoridades nacionais presentes. Uma delas, o ministro Henrique Meirelles, estava ao seu lado, amenizando um desconforto cervical com exercícios fisioterápicos.
Seria mais uma cerimônia típica de Brasília se Temer não tivesse jogado um pote de pimenta na própria laranjada, mencionando o “déficit de verdade” do governo da doutora Dilma Rousseff, em cuja chapa se elegeu duas vezes. Bater em Dilma é amassar carta que já saiu do baralho, mas quando o presidente diz que “encarar a verdade é difícil, é delicado, é complicado, é desagradável”, deveria olhar para seu governo e para a ausência do ministro de sua Secretaria de Governo.
Na verdade de Geddel está a afortunada transação de um apartamento no 23º andar de um empreendimento panorâmico que só tem autorização para subir até o 13º piso. Se ele e Temer acham que já se explicaram, o ministro poderia elaborar a resposta que deu para explicar seu apego aos R$ 20.354 que recebe como parlamentar aposentado, desde o seu 51º aniversário.
Somados aos R$ 33.763 que fatura como ministro, estoura o teto constitucional. Ele acha que nada há de ilegal nisso. Contudo, o procurador aposentado Michel Temer e o ministro Eliseu Padilha reduziram seus contracheques para respeitar o teto. Como diz Temer, encarar a verdade é difícil. Ou ele e Padilha jogaram dinheiro pela janela, ou a verdade de Geddel é outra.
Dilma Rousseff sempre teve uma relação agreste com a verdade. Hoje, quem tem esse déficit é ele. Seu ex-ministro do Planejamento e atual líder no Senado foi grampeado por um correligionário articulando uma forma de estancar “a sangria” da Lava-Jato. O ministro do Turismo foi-se embora depois de ter sido apanhado pela Procuradoria-Geral da República.
Desde que o doutor entrou no Planalto, só um funcionário do governo foi demitido por má conduta expressa. Foi o garçom Catalão. Acusaram-no de tuitar informações sigilosas para Lula. Afirmação falsa porque o celular de Catalão não tinha aplicativo para tuitar.
É possível que Temer acredite nos milagres da comunicação. Afinal ela é “fundamental”. Essa fé leva governantes a acreditarem que versões inverossímeis, eventos coreografados como o encontro do Conselhão, com a ausência estratégica de Geddel, possam fabricar uma realidade própria. Às vezes isso funciona. Sérgio Cabral foi um governador indiscutivelmente festejado. Foi até reeleito com dois terços dos votos. Deu no que deu.*
(*) Elio Gaspari – O Globo

É INACREDITÁVEL…

De Geddel e vaso-ostentação

Manutenção do ministro no cargo funciona como um aviso para os que ficam: quando ele ‘ponderar’, é melhor concordar
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Houve tempo em que se chamava de “mal de coluna” o tormento do espaço em branco que os colunistas têm de preencher regularmente. Hoje é o contrário. Neste quase final de ano, houve hiperinflação de temas e personagens, o que dificulta a escolha. Só no quesito escândalo, como decidir entre Cabral, Garotinho, Geddel, Renan, entre outros?
Pra começar, fico com o poderoso secretário de Governo e velho amigo de Temer, por ter causado a renúncia e a denúncia do colega da Cultura. Antes, ele já afrontara os bons costumes e o teto constitucional ao dizer que não abriria mão de um centavo nos R$ 51.288,25 que recebe por mês graças ao acúmulo de salário e aposentadoria. Depois, sempre zeloso de seus interesses, Geddel Vieira resolveu agir contra a decisão do Iphan de embargar a construção do prédio em que comprara um apartamento. Ele fez então o que chamou de “ponderação” e que Marcelo Calero classificou de “pressão” — tanta que preferiu deixar o ministério.
O presidente manteve Geddel no cargo, mesmo depois que a Comissão de Ética da Presidência abriu processo contra ele, o que funciona como um aviso para os que ficam: quando Geddel “ponderar”, é melhor concordar.
Como não há espaço para comentar as outras más notícias, escolhi a que não é a mais importante, mas a mais pitoresca, revelada pela coluna de Lauro Jardim: o vaso sanitário eletrônico ou privada-ostentação da ex-primeira dama do Estado do Rio Adriana Ancelmo.
O leitor (ou leitora) não sei, mas eu nunca experimentei uma igual, e olha que já frequentei alguns dos vasos sanitários mais chiques daqui e de outros países — e os piores também. Já tive que me submeter ao “boi”, o incômodo e anti-higiênico buraco no chão que Sérgio Cabral está sendo obrigado a usar agora, coitado.
Embora sem testar o produto, o repórter Marco Grillo leu, perguntou muito a respeito e nos deu detalhes numa espécie de manual de uso para possíveis interessados. A privada tem assento com temperatura regulada para os dias de frio, tem jato de água com pressão variável para a higiene e para a massagem (!), e controle remoto para acionar o mecanismo. E tudo pela bagatela de 500 dólares ou menos de R$ 2 mil, à venda nas boas casas do ramo ou pela internet.
Como gosto de ver o lado bom das coisas, fiquei me perguntando se atrás desse supérfluo sonho de consumo não haveria uma bem intencionada ação de preservação ambiental.
Quem sabe a compra dessa parafernália eletrônica não terá sido para dispensar papel higiênico que, como se sabe, ajuda a devastar nossas florestas?*
(*)  Zuenir Ventura – O Globo

BANDIDOS UNIDOS JAMAIS SERÃO PUNIDOS

De ladeiras e pudins

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Lá vem o Geddel, descendo a ladeira – do “La Vue”. Cabe a Michel Temer decidir se acompanhará seu ministro ladeira abaixo ou se vai dar um empurrão para a descida ser mais rápida. Não é fácil, porém, para o presidente abandonar quem gerencia a articulação política (quando não está empenhado em aprovar projetos imobiliários no Iphan). O dilema de Temer deve-se menos ao futuro do que ao passado. Sua ligação com Vieira Lima sobrevive há duas décadas, passou por quatro presidentes da República.
Na era FHC, em meados dos anos 90 do século passado, ambos faziam parte da Turma do Pudim. Reunidos semanalmente em torno de um prato de comida, Temer, Geddel, Renan Calheiros, Eliseu Padilha e Jader Barbalho decidiam o que o PMDB queria do governo tucano. Quem transmitia os recados era Henrique Eduardo Alves.
Muito mudou na aparência da política brasileira desde então, mas a Turma do Pudim continua onde sempre esteve: mandando e demandando. Eles mudam de cargo, circulam do Legislativo para o Executivo, mas raramente largam o poder. No governo FHC, a disposição das cadeiras era outra, mas quem as ocupava não.
Como Renan hoje, Temer, à época, presidia uma das Casas do Congresso (a Câmara). O hoje presidente do Senado é quem estava no Executivo, comandando o Ministério da Justiça. Padilha era ministro então e é ministro agora, só mudou de prédio: do Ministério dos Transportes para o Palácio do Planalto. Geddel, que era líder do PMDB, agora é ministro. Barbalho era e é senador (além de ser pai do ex-ministro dos Portos de Dilma). Alves era deputado, foi um breve ministro e caiu.
Eles dividem o pudim desde 1995. Prestam favores ao governo -qualquer governo – e depois cobram a fatura na forma de cargos. Foi assim que Temer emplacou o presidente das Docas de Santos (Codesp), Marcelo Azeredo, no governo FHC, e que Geddel viu seu pai, Afrísio, assumir posição semelhante nas Docas da Bahia.
Na primeira configuração da turma, Temer era líder do PMDB na Câmara, e Geddel, seu vice. No mandato seguinte, Geddel coordenou a campanha de Temer a presidente da Câmara, que contou com o apoio informal de FHC. Não foi à toa. Meses depois naquele 1997, ambos ajudaram a viabilizar a aprovação da emenda constitucional que garantiu o direito à reeleição a FHC (o autor da emenda foi o hoje ministro da Educação, Mendonça Filho).
Não é, portanto, trivial a decisão que Temer tem à sua frente. Ele e Geddel dividiram mais do que sobremesas. Foram do couvert ao digestivo, passando por incontáveis pratos principais.
Maior sinal da dificuldade do presidente é sua demora para agir. Nada fez mesmo depois de informado pelo então ministro da Cultura, Marcelo Calero, sobre as pressões de Geddel para que o Iphan (a ele subordinado) desembargasse as obras do Condomínio La Vue, um espigão de 30 andares na ladeira do Porto da Barra, em Salvador, onde Geddel comprara apartamento “em andar alto”.
Mesmo depois de o embrulho vir a público e de a versão preferida pelo Planalto (de que Calero havia caído por causa do projeto que regula a vaquejada) não ter emplacado, Temer não tomou nenhuma atitude em relação a seu ministro palaciano. Se, como diz Calero, Geddel de fato assediou o colega para agir em favor de seus interesses particulares, não há o que pensar. Se não é verdade, caberia então agir judicialmente contra Calero.
A inação não é uma opção por muito mais tempo. Mas a atitude que Temer vier a tomar não terá repercussões apenas sobre Geddel. Ela servirá de precedente para toda a Turma do Pudim.
Se o presidente entregar a cabeça do parceiro de confraria, os outros confrades saberão que, amanhã, dependendo das circunstâncias, pode ser a deles. Assim como o Iphan melou o pudim de Geddel, Renan, com seus 12 inquéritos no STF, tem o poder de embargar os principais projetos de Temer no Senado.*
(*)  José Roberto Toledo – Estadão

GEDDEL, “O INCORRUPTÍVEL”

E só Temer não viu

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Mesmo no fim de semana, os assessores mais próximos do presidente garantiam que Geddel não fez nada demais. A semana que começou com Michel Temer passando a mão na cabeça de Romero Jucá e demonstrando, de um lado, condescendência com acusações de corrupção contra aliados e, de outro, paúra da capacidade de mobilização de Lula e do PT, só poderia terminar com um episódio como o que contrapôs o ministro Geddel Vieira Lima e o agora ex Marcelo Calero.
Parafraseando Chico Buarque, o tempo passou na janela, e só Temer e seus principais aliados no Planalto e no Congresso não viram. No Brasil pós-Lava Jato, vai-se mostrando impossível conviver com tráfico de influência explícito como o praticado por Geddel, tentativas de moldar as leis às conveniências dos investigados, como as praticadas na Câmara e no Senado, e manobras para o tapetão, como a tentada pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), para buscar uma reeleição que não lhe é facultada.
O desassombro com que Calero deu uma entrevista para contar em detalhes algo que pré-Lava Jato ficaria restrito aos bastidores, mostra que grampos, delações e prisões de poderosos tiveram, sim, um efeito educativo sobre a política brasileira, e que há quem se importe em preservar honra e currículo de máculas que outros das antigas gerações tratam com desdém.
Temer parece alheio ao trem da história: mesmo no fim de semana, os assessores mais próximos do presidente garantiam que Geddel não fez nada demais, e fica onde está. Mais: o fato de a pressão não ter surtido resultado seria ponto a favor do governo. Vida que segue. A conferir.*
(*)  Vera Magalhães – Estadão
Fonte: http://www.contraovento.com.br/

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