sexta-feira, 4 de novembro de 2016

E NO PAÍS DA PIADA PRONTA…

Neurônio literato
nicolielo
Se a escritora Dilma seguir o exemplo da ex-presidente, os vilões vencem no final.
“Eu queria escrever um romance policial. Gosto muito. Li muito”.
(Dilma Rousseff, na entrevista à Folha, ainda sem revelar se, repetindo o que fez a presidente na vida real, também a ficcionista vai fazer o possível para manter os bandidos longe da cadeia).*

(*) Blog do Augusto Nunes

BYE BYE, LULOPETISTAS!

A tribo debandou

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RIO DE JANEIRO – Um leitor me recorda que, há anos, sugeri nesta coluna que o Brasil instituísse o recall eleitoral. Ou seja, que, em qualquer momento, os eleitores pudessem pedir de volta os votos que haviam dado a um candidato e o ajudado a se eleger. Se esse recall fosse significativo, o governante deveria devolver o mandato, pegar o boné e retirar-se da cena política.
A ideia revelou-se impraticável, mas parece que, sem bagunçar o calendário, o Brasil fez algo do gênero nessas últimas eleições. Pediu de volta os votos que havia confiado a muita gente e os depositou na conta de outros políticos, alguns dos quais mal tinham entrado na história. Ou apenas os jogou no lixo.
O maior rombo foi no PT. Teve de devolver toneladas de votos, perdeu dois terços das prefeituras que comandava, entre as quais as de todas as grandes cidades e as do ex-“cinturão vermelho”, o ABCD paulista, e caiu do terceiro para o décimo lugar entre os partidos — rumo à zona do rebaixamento. E sempre que suas figurinhas carimbadas, Lula e Dilma, subiram ao palanque de um candidato para apoiá-lo, este batia na madeira e via os seus votos baterem asas rumo ao adversário.
No caso de Lula, parece um recall a priori. É como se o eleitorado já estivesse lhe retirando, às mancheias, os votos de que ele se gabava para 2018 — resta ver se lhe sobrará algum. E Dilma, cujos 54 milhões de votos em 2014 foram martelados à náusea por sua tropa de choque no Senado, pode hoje, cassada, pedalar sua desimportância por Rio e Porto Alegre — ninguém a afaga, ninguém a hostiliza.
Mas não somente o PT saiu desidratado. Todos os caciques regionais — Aécio Neves em Minas Gerais, José Sarney no Maranhão, Renan Calheiros em Alagoas, a família Campos em Pernambuco — perderam índios em massa. Cada índio, um voto. A tribo debandou.*
(*) Ruy Castro – Folha de São Paulo

UM VERDADEIRO HORROR…

Nada mais que a verdade

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SÃO PAULO – Donald Trump faz a delícia dos checadores de fatos, pois ele mente uma enormidade. De acordo com o site PolitiFact, só 4% do que o candidato diz é rigorosamente verdadeiro e 70% de suas declarações podem ser classificadas como mentira, numa rica gradação que vai do majoritariamente falso ao escandalosamente inverídico. O resto fica na zona cinzenta das quase verdades e das meias-verdades.
Já Hillary Clinton, que Trump tenta pintar como desonesta, parece quase uma santa na comparação com o republicano. Segundo o PolitiFact, 24% do que ela diz é verdadeiro, com as mentiras batendo em 26%.
É chocante que o mais sincero dos postulantes ao cargo mais importante do mundo falte com a verdade em praticamente um quarto de suas asserções, mas esse é um número até que razoável para a espécie humana.
Autores como Robert Feldman e David Livingstone Smith mostram que mentimos muito —e desde criancinhas. Aliás, os pequenos estão mais para Trump que para Hillary. Aos três anos, crianças descumprem as regras estipuladas em 82% das ocasiões e mentem sobre isso 95% das vezes. A boa notícia é que até melhoramos um pouco quando crescemos. Na faculdade, jovens mentem para os pais em 50% de suas conversas e, para estranhos, em 80%.
Uma comparação mais pertinente entre políticos em campanha e pessoas normais são os currículos. Ambos estão tentando vender a si mesmos e sabem que podem ser apanhados em flagrante. Segundo empresas especializadas em conferir CVs, entre 30% e 50% das pessoas que buscam uma colocação falsificam informações importantes em seus currículos. A cifra beira os 80% se incluirmos também os CVs que apenas tentam induzir o avaliador a erro.
Trump parece de fato ser um mentiroso compulsivo, mas a humanidade talvez não fique muito atrás. Não é muito enaltecedor para a espécie, mas é como somos.*
(*)  Hélio Shwartsman – Folha de São Paulo

ESPERANDOO GODOT

Brasília entra em estado de atenção enquanto espera delações e protestos

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Passar uns dias em Brasília reforça a conjectura de que o Brasil está prestes – prestes a não se sabe o quê. Com o fim da crença de que o país progride, a capital entrou em estado de atenção, aguarda tudo ao mesmo tempo: delações, protestos, conciliação. A iminência de uma revelação que não se produz está em todas as bocas. A seguir, a algaravia do que elas falaram.
Senadora: Está em andamento um acordo para livrar a cara dos corruptos. Ele está sendo feito nos ministérios, no Planalto, nesse plenário. Mas ninguém diz quem está negociando com quem.
Deputado: O acordo é para anistiar todos os que foram eleitos com caixa dois. Assim, o governo e o sistema político se safam. Os empreiteiros se safaram antes, com as deduragens premiadas.
Senador: Não é bem um acordo. É uma onda, um salve-se quem puder coletivo, um entendimento mudo, uma tabelinha que vai sendo improvisada conforme os novos lances.
Ministro que aparece na delação da Odebrecht: Nunca estive tão angustiado na vida. Por não saber o que vai acontecer amanhã. Não me informo porque chamaria a atenção.
Senador: Num voo para o Rio, o Lindbergh viajou ao lado da Claudia Cruz, mulher do Eduardo Cunha. Ela estava de óculos escuros e se escondia. No desembarque, um grupo veio na sua direção. E não é que o Lindbergh foi para frente dela, estufou o peito e espantou os caras?
Lindbergh Farias, senador: Agi por impulso.
Ministro: Tive uma reunião com a cúpula do Exército. Os generais não pensam em golpe, se bem que estejam preocupados com a segurança nacional. É impressionante o desprezo deles pela Polícia Federal.
Deputado: Num dia, tropeiros tomaram a Esplanada para protestar contra a proibição das vaquejadas. No outro, a Câmara engessou o orçamento da União por 20 anos. Agora noticiam que 160 brasileiros foram assassinados por dia no ano passado – um a cada nove minutos. Está difícil de entender o país.
Cartaz num caminhão estacionado no Eixo Monumental: Quatro mil vaquejadas geram 700 mil empregos.
Juiz: Sei que a vaquejada é um fato cultural. Mas bater em mulher também é.
Ministro: Esse negócio de vaquejada me lembra o Sandro Moreyra. Tem uma crônica em que ele conta a ida da torcida brasileira a uma tourada. Os brasileiros aplaudiram o touro e gritaram “bicha! bicha!” para o toureiro. Foram politicamente incorretos até quando corretos.
Deputado: Não vejo como Temer possa chegar ao fim. A política econômica vai desempregar ainda mais, e você acha que ninguém vai fazer nada? Confio no nosso povo.
Senador: Acho que não vai acontecer nada. Os brasileiros estão cansados.
Deputada: É incrível a irresponsabilidade do poder. O Brasil só piora e Brasília não está nem aí.
Juiz: Prefiro Brasília ao Rio. O Rio onde eu jogava vôlei de praia ficou perigoso. Mas que é difícil mudar o Brasil a partir de Brasília, ah, isso é.
Albie Sachs, ex-juiz do Tribunal Constitucional da África do Sul, que perdeu um braço na luta contra o apartheid: É uma emoção estar em Brasília hoje. Descobri Niemeyer durante o meu exílio, de 11 anos, em Moçambique. Foi um dos maiores homens do século 20. Ele nos ensinou que poderíamos construir o futuro.
Oscar Niemeyer, sobre os seus objetivos com Brasília: Construir uma cidade de homens felizes, homens que sintam a vida em toda a sua plenitude, em toda a sua fragilidade, homens que compreendam o valor das coisas puras. *
(*) Mário Sérgio Conti – Folha de São Paulo

LAVA JATO: ÚLTIMOS CAPÍTULOS

Marcelo Odebrecht ficará preso até fim de 2017, prevê acordo com a Lava Jato

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Os advogados da empreiteira Odebrecht e o Ministério Público Federal fecharam um acordo para que o herdeiro da construtora, Marcelo Odebrecht, permaneça preso em regime fechado até dezembro de 2017.
Segundo a Folha apurou, na negociação de delação premiada, os procuradores envolvidos na Operação Lava Jato e os representantes do empreiteiro acertaram que a pena total será de dez anos, sendo dois anos e meio em regime fechado.
Marcelo está preso desde junho do ano passado no Paraná sob suspeita de envolvimento no esquema de desvios da Petrobras. Esse período de um ano e quatro meses será descontado da pena total, de acordo com pessoas ligadas às negociações.
Editoria de Arte/Folhapress
A DELAÇÃO DA ODEBRECHT19.jun.15Marcelo Odebrecht, herdeiro do grupo homônimo, é preso na Operação Lava Jato8.mar.16Marcelo Odebrecht é condenado a 19 anos e 4 meses de prisão por corrupção, lavagem de dinheiro e integrar organização criminosa22.mar.16Após a prisão e delação de secretária responsável por pagamento de propinas, grupo Odebrecht anuncia que decidiu negociar um acordo de colaboração25.mai.16Odebrecht e Ministério Público Federal assinam documento que formaliza a negociação de delação premiada e leniência; Marcelo Odebrecht é um dos delatores3.out.16Procuradoria-Geral da República propõe a advogados da Odebrecht que Marcelo cumpra pena de quatro anos em regime fechado por atuação no esquema da Petrobras. Após negociação, punição foi fechada em 10 anos, sendo dois e meio deles em regime fechado
A delação da Odebrecht
A partir de dezembro de 2017, portanto, o empresário entraria em progressão de regime, cumprindo pena no semiaberto e aberto, inclusive o domiciliar.
No começo de outubro, a Folharevelou que as autoridades da Lava Jato apresentaram proposta para que ele cumprisse pena de quatro anos em regime fechado.
A defesa do ex-executivo, no entanto, conseguiu negociar a redução da punição, alegando que era muito rígida diante do conteúdo apresentado pelo empresário, envolvendo políticos de alto calibre e contratos públicos de valores elevados.
A mulher dele, Isabela Odebrecht, já começou a reformar o escritório que fica na casa do casal, em São Paulo, para que o marido possa trabalhar quando for libertado em regime semiaberto.
ASSINATURA
A delação da Odebrecht é uma das mais aguardadas pelos investigadores da Lava Jato. Cerca de 80 executivos e outros funcionários da empresa negociam com a PGR (Procuradoria-Geral da República), em Brasília, e a força-tarefa em Curitiba.
A expectativa é que o acordo seja assinado até o fim deste mês. A partir daí, começa a fase de depoimentos e, depois, o acerto para a homologação judicial.
Nas conversas preliminares de negociação da delação, políticos de vários partidos foram mencionados pelos executivos, entre eles os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Dilma Rousseff (PT), assim como o presidente Michel Temer (PMDB), o ministro de Relações Exteriores, José Serra (PSDB), governadores e congressistas. Todos vêm negando as irregularidades.
Em março, o juiz Sergio Moro, que conduz a Lava Jato na Justiça Federal, condenou Marcelo Odebrecht a 19 anos e quatro meses de prisão por corrupção, lavagem de dinheiro e associação criminosa. Entre os benefícios de fechar uma colaboração com a Justiça estaria, inclusive, a redução dessa pena.
De acordo com investigadores que tiveram acesso aos depoimentos iniciais, Marcelo Odebrecht afirmou, por exemplo, que a ex-presidente Dilma interveio para que a Caixa atuasse na operação financeira de construção da Arena Corinthians, palco da abertura da Copa de 2014.
O banco público participou de duas maneiras do projeto. Numa delas, aceitou ser o intermediário do financiamento do BNDES ao fundo de investimento criado por Corinthians e Odebrecht.
Depois, a Caixa comprou, conforme reportagem da Folha, debêntures emitidas pela Odebrecht no valor de R$ 350 milhões, em uma transação sigilosa para cobrir um rombo da empreiteira na construção do estádio.
O pai de Marcelo, Emílio Odebrecht, contou ainda aos investigadores que o estádio foi uma espécie de presente para o ex-presidente Lula, torcedor do Corinthians.
Em relação a José Serra, reportagem da Folha revelou que a empreiteira diz ter pago R$ 23 milhões via caixa dois na Suíça para a campanha dele à Presidência em 2010. O tucano não comenta o teor da delação, mas nega ter cometido irregularidades.
O doleiro Alberto Youssef, segundo a fechar delação na Lava Jato, deixará a cadeia neste mês, após dois anos e oito meses. O primeiro delator, o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, também não está mais preso.
OUTRO LADO
Procurada, a Odebrecht informou que não vai se pronunciar sobre a data em que Marcelo Odebrecht deixará o regime fechado tampouco a respeito das negociações de delação premiada em curso.
O ex-ministro da Justiça e advogado da ex-presidente Dilma Rousseff durante o processo de impeachment da petista, José Eduardo Cardozo, disse que não teve acesso ao conteúdo das declarações do empreiteiro e, por isso, não vai comentá-las.
A Caixa informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que também não irá se manifestar. A assessoria do banco diz que as transações das quais participou envolvendo a Arena Corinthians são protegidas por sigilo. *
(*)  MARINA DIA – GABRIEL MASCARENHAS – DE BRASÍLIA – FOLHA DE SÃO PAULO

O PT É DE ESQUERDA, É?

Onda furada

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Fala-se de ‘virada’ à direita como se algum dia o Brasil tivesse sido de esquerda. Concluídas as eleições, inicia-se a fase das conclusões. No geral, apressadas quando se trata de fazer projeções. A mais difundida no momento é a que põe nas mãos do governador Geraldo Alckmin a legenda do PSDB para concorrer à Presidência da República em 2018, como consequência da vitória em primeiro turno de João Doria para a Prefeitura de São Paulo, da conquista de importantes cidades no Estado e da derrota do candidato do senador Aécio Neves à prefeitura de Belo Horizonte.
Nesses casos de A + B=C, somam-se bananas com laranjas e trata-se a política como se fosse ciência exata ou como algo que funcione no piloto automático. No meio, entre um acontecimento e outros há os fatos, há as circunstâncias e há gente, espécie humana, categoria instável, sujeita aos efeitos da chuva e das trovoadas.
Experiente no tema, Alckmin tratou anteontem de declarar algo que certamente não pensa: que, no momento, a disputa de 2018 não está na agenda dele nem do PSDB. É claro que está, mas é daquelas coisas que o político precavido não assume. Entre outros motivos para não se queimar e ver se consegue atravessar a distância entre uma eleição e outra com chance de sucesso na tarefa de ultrapassar obstáculos.
São inúmeros. Na seara tucana há dois com nomes e sobrenomes: José Serra e Aécio Neves. Sem contar os respectivos aliados internos e externos. O primeiro é chanceler e um interlocutor privilegiado no PMDB. Importantíssimo para a eventualidade da conquista desse apoio caso o partido de Michel Temer não concorra ou não chegue ao segundo turno em 2018. O segundo é senador e presidente do PSDB; tem a máquina, portanto. Ambos contam com visibilidade garantida, além de não terem seus destinos ligados ao êxito ou fracasso de alguém, como Alckmin precisa de que João Doria corresponda às expectativas do maior eleitorado do País.
Além disso, a própria história de eleições fornece milhões de exemplos de desconexão entre resultados bons e maus. Dois deles: em 2008, Geraldo Alckmin não chegou ao segundo turno na eleição municipal em São Paulo, disputada entre Marta Suplicy e Gilberto Kassab, o vitorioso; em 2014, Aécio Neves teve menos votos que Dilma Rousseff em Minas Gerais, seu reduto principal, mas por pouco não ganhou dela na final pela Presidência.
Vamos a outro caso de conclusão apressada que, aliás, dá título a este texto: a tal da onda conservadora que supostamente varre o País. Por causa da derrota ampla, geral e irrestrita do PT? Pela eleição de Marcelo Crivella no Rio de Janeiro? Pela vitória de Doria?
Ora, o fiasco do PT não tem nada a ver com ideologia. Tem a ver com corrupção e desatino na administração da economia. Ademais, quem disse que os petistas detém o monopólio do pensamento de esquerda? Governou com e para a direita atrasada, tratou os mais pobres como consumidores – algo típico do coronelato arcaico dos grotões. Além disso, seu líder máximo quando sindicalista declarava não ser de esquerda. Lula vestiu essa roupagem quando precisou dela para construir um partido.
Doria venceu em São Paulo por ter sabido encarnar com eficiência o antipetismo. Crivella ganhou no Rio em boa medida pela autossuficiência do prefeito Eduardo Paes que insistiu em apoiar um candidato eleitoralmente inviável. De onde o segundo turno entre o bispo aposentado e um candidato visto como representante de uma esquerda amalucada. Marcelo Freixo, convenhamos, não chega perto de ser um Fernando Gabeira, que, aliás, perdeu de pouco para Paes em 2008 quando, pela régua dos arautos da onda conservadora, o Brasil era de esquerda.
Em momento algum o País teve a prevalência da corrente de esquerda. Não nos esqueçamos: Lula só ganhou a eleição quando adaptou seu discurso ao centro e fez uma Carta aos Brasileiros jurando fidelidade à política econômica qualificada pejorativa e equivocadamente como neoliberal.*
(*) Dora Kramer – Estadão
Fonte: http://www.contraovento.com.br/

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