sábado, 13 de agosto de 2016

CRÔNICAS DO BLOG "BESTA FUBANA"

A GARRAFADA

Na parede da frente de uma antiga casa, num bairro pobre de Natal, podia-se ler um anúncio escrito em um papelão, com letras garrafais, que dizia:
“VENDEMOS GARRAFADA – PAI BUJARI CURA TODAS AS DOENÇAS, E AINDA: QUEBRANTO, OLHO GRANDE, MAU OLHADO, ESPINHELA CAÍDA, PUXADO, BRONQUITE, CARUARA (FEITIÇO), COBREIRO, MACACOA (MOLEZA), CURUBA (SARNA), ESTALICÍDIO (RESFRIADO), CONSTIPAÇÃO (PRISÃO DE VENTRE), MOFINEZ (DESÂNIMO) E ENCOSTO.”
Vininha, um homem de 45 anos, bonitão e envolvente, eternamente desempregado, leu o anúncio e seu rosto se iluminou. Acostumado a tirar proveito de tudo, imediatamente, pensou: “Vou ficar rico!”GARRAFA
Bateu palmas na porta da casa, e pediu para falar com o dono da garrafada. De repente, apareceu na sua frente um homem baixo e magro, sarará, usando óculos do tipo fundo de garrafa, aparentando pouco mais de 50 anos, que logo perguntou:
– O ilustre deseja se consultar?”
– Não. Eu quero falar com o doutor, responsável pela garrafada!
– O dono é este seu criado. Sou o doutor Bujari.
Astucioso, Vininha falou:
– Sou o doutor Vinício Figueiroa, médico. Prazer em conhecê-lo! Achei muito interessante o anúncio que li na parede. Quero saber se essa garrafada cura mesmo e se o senhor possui a fórmula.
– Possuo, sim, senhor. Foi herdada do meu tataravô, que curava doença com as plantas. Essa fórmula tem mais de cinquenta anos.
Depois de muito arrodeio, o visitante foi direto ao que lhe interessava:
– O senhor sabe que é ilegal a venda dessa garrafada? Mas podemos ser sócios. Sou muito conhecido aqui em Natal e tenho amizade com as autoridades. Posso “tirar”, na Saúde Pública, a licença para venda do “medicamento”, pago os impostos e anuncio nos jornais. Vamos ficar ricos. Mas vamos mudar o nome da garrafada para “Elixir da Boa Vida”!
Desconfiado como todo matuto, e sem levantar os olhos, o dono da garrafada disse que iria pensar na proposta. O visitante insistiu, lembrando ao “doutor” que as consultas ali anunciadas eram ilegais, como também a venda da garrafada. Lembrou que aquilo é charlatanismo, crime previsto no Código Penal Brasileiro, e dá cadeia.
O dono da garrafada, sentindo-se chantageado, concordou com a proposta do outro falso médico.
Três dias depois, o anúncio do “Elixir da Boa Vida” saiu nos dois principais jornais da cidade.
A primeira paciente que os dois “médicos” atenderam foi uma mulher histérica, de 26 anos, traída pelo marido, querendo um remédio para fazê-lo voltar para ela. A garrafada seria colocada aos poucos no café, para que o marido tomasse sem perceber. A mulher pagou a consulta, a garrafada, e saiu de lá com a certeza de que o marido deixaria a tal “maruagem” e que cairia novamente nos seus braços.
Vininha, sentado num birô, anotava os nomes dos pacientes, recebia o pagamento, e fazia a contabilidade.
Das 7 da manhã às 8 da noite, não faltava “paciente”. Chegava a se formar uma fila para atendimento no “consultório” dos dois “doutores.” Era um verdadeiro desfile da miséria humana. Toda qualidade de doença ali aparecia, merecendo destaque o número de pessoas tuberculosas, à procura do milagroso “remédio”.
Vendiam cartões de consulta e garrafas do “Elixir da Boa Vida”. Também vendiam doses do “remédio”, quando havia tratamento de urgência, com pacientes em crise. Vininha ficava sozinho no atendimento, após o almoço, durante o período da sesta do doutor Bujari. Por mais de duas horas, ele recebia o dinheiro das consultas, não anotava nada e colocava no próprio bolso.
Certa vez, chegou um casal acompanhando uma filha de 25 anos, toda entrevada, que há dias não falava com ninguém. Tinham ido a um curandeiro, que garantiu tratar-se de um encosto. Como os pais não viram progresso no tratamento, o casal resolveu levar a jovem para se consultar na capital. Chegaram, exatamente, à hora em que o doutor Bujari descansava do almoço. Vininha foi quem fez o atendimento. Viu logo que era histerismo, junto com o desgosto sofrido pelo rompimento de um namoro. Vininha fez com que a jovem bebesse um copo da garrafada lá mesmo, e garantiu que o efeito seria imediato, pois aquele remédio curava até defunto. A jovem, impressionada, tomou a gororoba e, como por milagre, destravou-se, relaxou e disse para os pais:
– Fiquei boa! Posso andar sozinha!!!
O matuto também comprou uma garrafada, para a moça ficar tomando em casa, conforme prescrição do “doutor Vinício Figueiroa”. Perguntou, então, quanto devia ao “doutor”, e o charlatão cobrou dez vezes mais do que o valor da consulta. Não anotou nada e embolsou o dinheiro.
Doutor Bujari começou a estranhar a diminuição dos apurados. Quando iam dividir os lucros, Vininha já havia embolsado muito mais do que lhe caberia. O plano do golpista era se apossar da fórmula da garrafada, trancada “a sete chaves”, pelo doutor Bujari.
Por mais que Vininha insistisse, o “doutor” disfarçava e não o atendia. Não tendo mais como apelar, Vininha escreveu uma carta anônima, ameaçando a ele mesmo e ao doutor Bujari de prisão, por estarem exercendo o charlatanismo. Nessa ocasião, exigiu que o doutor Bujari lhe desse uma cópia da fórmula, pois também iria precisar para se defender, no caso de uma possível intimação policial. Vendo-se sem saída, “doutor” Bujari deu uma cópia da fórmula ao “doutor” Vinício, mas ficou visivelmente contrariado. Feliz da vida, por estar com a fórmula da garrafada, o vigarista aprontou-se para ir embora dali, dizendo, apenas, que iria ao banco.
Enquanto isso, doutor Bujari abriu uma garrafa de bebida e ofereceu ao sócio. Disse que era uma bebida que havia recebido de presente.
Vininha perguntou:
– Que bebida é essa, Bujari?
– Uma bebida muito gostosa, que vem de um engenho. É a melhor cachaça do mundo. É ela que eu uso na garrafada, pra dar gosto.
Vininha, para agradar ao sócio, aceitou beber. Achou a bebida repugnante e fez um grande esforço para tomar. Com a língua grossa e tonto, caiu ao chão e adormeceu profundamente.
Quando acordou, já era noite. Vininha se viu sozinho e desorientado. Na casa, não havia mais nem rastro do doutor Bujari. A fórmula da garrafada também havia sumido, junto com o dinheiro que guardava no bolso.
De besta, o “doutor da garrafada” não tinha nada…
Fonte: http://www.luizberto.com/

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