quarta-feira, 24 de agosto de 2016

BLOG DO NOBLAT

José Paulo Cavalcanti Filho
José Paulo Cavalcanti Filhoé advogado

Caro Ryan Lochte

“Visto que talvez nem tudo seja falso, que nada nos cure o prazer de mentir” – escreveu Bernardo Soares (Fernando Pessoa) no Desassossego. Ah!, o prazer de mentir... Problema é que, de vez em quando, ele sai caro. Você é americano. Campeão. E o Rio é mesmo uma cidade violenta, não dá para negar. Na sua cabecinha de bêbado, passou a ideia de poder dizer que foi assaltado. Todos viram as entrevistas que deu, nas televisões de seu país. Com gesto imitando um revólver na testa. Poderia mesmo ter dado certo. Só que não deu. Paciência.
Nixon também mentiu, no caso da invasão ao Edifício Watergate – onde se reuniam, sigilosamente, membros do Partido Democrata. E essa esperteza lhe custou a presidência. Na Comissão de Justiça da Câmara dos Representantes (equivalente a nossa Câmara dos Deputados), sua defesa foi que “mentir não é crime”. Nem no Federal Criminal Code, nem em nenhum dos 51 Códigos Penais Estaduais. Deu errado. O comportamento foi considerado misdemeanour. Mentir é algo indigno para cargo tão alto. Perdeu lá por 41 x 0. E seria impeachado. Preferiu renunciar. Como a história se repete (mais razão tinha Maquiavel, que Marx), também por aqui Eduardo Cunha mentiu. Renunciou, para tentar se salvar. E vai ser cassado. Ou não, de nossa Câmara pode-se esperar tudo. A ver.
Como a carne é fraca, Ryan, seus companheiros de cachaça e baderna já tiraram o corpo fora. Guarde o nome deles – Gunnar Bentz, Jack Conger, Jimmy Feigen. Não quiseram ser cúmplices. Ou não eram tão amigos assim. No seu país, há dito bem conhecido segundo o qual a diferença entre um homem honrado e um mentiroso (ladrão, na verdade) é que o segundo foi pego mentindo (roubando, na verdade). Você foi pego. Azar o seu.
Não sabemos o que aconteceu naquela noite. Conhecemos só o fim da história –  com vocês completamente embriagados, quebrando tabuletas de publicidade e tentando escapulir sem pagar o prejuízo. Americano pode tudo, no íntimo vocês acreditam nisso. Temos direito de especular sobre o que ocorreu antes. Talvez tenham ido a uma boate, para ter sexo barato com divas salientes. Ou a uma sauna gay, quem sabe? Um fumarum dollar na Praça Mauá. Sua namorada não vai gostar de nenhuma dessas hipóteses. Visto que nenhum homem sensato vai acreditar na versão de que vocês apenas passeavam por Copacabana, olhando a lua, todas essas versões são possíveis. Mais uma vez com Pessoa, “A mentira absurda tem todo o encanto do perverso e o maior encanto de ser inocente” (também no Desassossego).
O primeiro mundo é engraçado. Anunciaram catástrofes sem conta, nessas Olimpíadas. Mas não houve nenhum atentado, como na Alemanha. Nenhum atirador apareceu, como aqueles que matam crianças nas escolas americanas. Os únicos presos, por corrupção, não foram brasileiros. Mas os britânicos Kevin Mallon e Patrick Hickey. Aqui, há notícias de terem batido a carteira de um atleta inglês. Grande coisa... Também levaram a bolsa de minha mãe, em Piccadilly Circus. Ela reclamou na Scotland Yard. E, até hoje, a bolsa querida de Dona Maria Lia não apareceu. Acontece.
Sabemos que a pena por essa mentira (denunciação falsa de crime), no Brasil, é pequena. Cadeia, de 1 a 6 meses. E que pode ser paga por cestas básicas. Como você ganhou 80 mil dólares por sua Medalha de Ouro, dinheiro não é problema. Só que o pior está por vir. É que, assente ser você um mentiroso, será que a Nike e outros patrocinadores vão querer mantê-lo como garoto propaganda? Quanto vale, na mídia, alguém que mente? Você pode ser exemplo para crianças? Para ninguém?
Assim, quando seus bolsos (a parte mais sensível do corpo dos ricos) começarem a doer, talvez então você poderá perguntar como o já tão citado Pessoa: “Valeu a pena?” (em Mar Português,  de Mensagem). Só então verá que a vida não imita a arte. O “Tudo vale a pena”, do poema, não vale para seu caso. Sugerimos então que você procure outra namorada. Chore, no quarto, a perda dos patrocínios. Fique dizendo, aos jornais, “esqueçam o que eu disse” – a frase é muito popular, no Brasil. Tome quantas cachaças quiser, ou vá a inferninhos, a saunas, ou fume, a vida é sua. Nem tenha a má ideia, no futuro, de passar férias no Brasil. E, daqui a dois meses, pague suas penas votando em alguém que é muito parecido com você. Donald Trump.
Ryan Lochte (Foto: Divulgação)Ryan Lochte (Foto: Divulgação)

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