domingo, 14 de agosto de 2016

ABAIXO A CENSURA

As faixas e as vaias da discórdia

Só intolerância ou burrice explicam que “Fora, Temer” ou “Tchau, Dilma” sejam considerados ofensivos

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Mal os brasileiros haviam enxugado lágrimas de emoção verde-amarela pela abertura olímpica que exaltava a tolerância e celebrava “nossas diferenças”, duas polêmicas mostraram que nós não somos bem assim. As faixas políticas e as vaias esportivas revelaram o que já sabemos. Nossas paixões transcendem regras, leis e padrões de conduta. Somos indisciplinados, metidos e provocadores.
Torcedores com faixas e camisetas “Fora, Temer” foram retirados dos estádios por policiais ou ameaçados de prisão por agentes com uniformes camuflados da Força Nacional de Segurança, caso não enrolassem as faixas ou mudassem de camisa. Gritos de “abaixo a ditadura” e “fora, censura” agitaram vídeos nas redes sociais. Ironicamente, a base para a repressão era uma lei sancionada por Dilma Rousseff em 2014, no ano da Copa, e referendada em maio deste ano para a Olimpíada, pouco antes de ela ser afastada.
A lei dizia: “Não utilizar bandeiras para outros fins que não o da manifestação festiva e amigável”. Mas não mencionava política. A partir daí, todas as interpretações são possíveis. “Fora, Temer” é festivo e amigável? “Tchau, querida” é festivo e amigável? Depende do time para o qual você torce. O debate não tem fim entre juristas. Até os ministros do Supremo Tribunal Federal discordam entre si. O STF apoiou a constitucionalidade da lei de 2014, por acreditar que faixas e bandeiras que possam incitar a conflitos não combinam com estádios esportivos.
Só a intolerância, ou a burrice, ou ambas explicam que alguém possa considerar ofensivo um cartaz “Fora, Temer”, ou “Tchau, Dilma”, ou “Adeus, Lula”. Bandeira racista, machista ou xenófoba é claramente um crime contra os direitos humanos e deve ser reprimida. Mas por que raios censurar a manifestação pacífica de um desejo político? Desde quando a paz é ameaçada por algum desses cartazes? Só acho estranho não ter visto nenhuma faixa “Volta, Dilma”. Onde estão os dilmistas? Cadê os que torcem pela volta de Dilma ao Poder?
Parece errado o Comitê Olímpico Internacional ir contra a Constituição de 1988, que diz ser “livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”. Onde está o espírito olímpico, minha gente? O COI se explica. Diz que a regra 50 da Carta Olímpica “tem como objetivo separar esporte de política, honrar o contexto dos Jogos Olímpicos e garantir a reunião pacífica de atletas, dirigentes e espectadores de diferentes culturas, crenças e origens”. Mario Andrada, diretor de comunicação da Rio 2016, explicou o veto aos cartazes. “Queremos arenas limpas.” Mas vaias e gritos políticos estão permitidos. Senão, “metade do Maracanã teria sido esvaziado”.
Não foram só as vaias a Temer na abertura. Mas os urros contra atletas adversários. Tem gente que detesta o exorcismo explícito do torcedor brasileiro. Quem adora são os atletas empurrados pelo amor transbordante e pelos aplausos, a outra face da moeda. Eles se jogam nos braços da torcida, dizem que “nunca viram nada parecido”. A plateia às vezes adota como seu um atleta ou uma equipe de outro país. Nunca da Argentina. Estamos fazendo escola: algumas torcidas estrangeiras, mais frias e educadas, passaram a urrar também, para não ficar para trás no amor a seus atletas.
Não durou muito a repressão oficial às faixas políticas. Um juiz federal, João Augusto Carneiro Araújo, gastou 23 minutos para conceder liminar pedida por uma procuradora da República. E proibiu a proibição à “manifestação pacífica de cunho político” com uso de cartazes, camisetas “e outros meios lícitos nos locais oficiais” da Olimpíada. Quem reprimir pagará multa de R$ 10 mil. O COI prometeu recorrer. Mas melhor cair em si e esquecer o assunto.
Entendo que a finalidade da Olimpíada seja outra. Com o “liberou geral”, há o risco de poluir os estádios e incomodar quem só está a fim de torcer por atletas e medalhas. Em seu perfil no Facebook, o jornalista Rogério Simões postou um comentário que assino embaixo: “Agora vai ter faixa contra o Temer, contra a Dilma, contra o Lula, a favor do Lula, contra o Trump, a favor do Bolsonaro, contra o aquecimento global, contra o aborto, a favor de alguma PEC, contra outra PEC, a favor da pena de morte, contra o doping, a favor da Anitta, contra o Luciano Huck, a favor da bomba atômica, a favor da globalização, contra a globalização, a favor do sertanejo universitário, contra o rock, a favor do heavy metal, a favor das drogas, a favor dos jogos de azar, contra a maconha, a favor de Jesus, contra Jesus, a favor do queijo com goiabada, contra a pizza com ketchup, e todo mundo vai ficar feliz. Mas e a disputa do ouro? Já foi? Putz, perdi…”.*
(*) Ruth de Aquino – Época

“DEMORÔ”

Após Olimpíada, Lula deverá ser denunciado por participação no petrolão

Mas não está previsto, por enquanto, pedido de prisão contra o ex-presidente

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Está tudo pronto para que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva seja indiciado pela Polícia Federal e denunciado pelos procuradores da forçatarefa da Lava Jato em Curitiba. Os investigadores trabalham com afinco para pegar Lula assim que a Olimpíada termine. Delegados e procuradores julgam ter provas robustas de que Lula era o chefe do petrolão – e de que recebeu propina das empreiteiras, por meio do sítio em Atibaia e do tríplex em Guarujá. O conjunto de evidências é tamanho que eles abdicam até de novas informações provenientes de delações premiadas. Os investigadores estão irritados com as seguidas tentativas de Lula de intimidá-los. Mas não está previsto, por enquanto, pedido de prisão contra o ex-presidente. Ao menos contra ele. Será a segunda denúncia do Ministério Público contra Lula. A primeira diz respeito à tentativa de Lula silenciar o ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró para que ele não desse informações sobre o pecuarista José Carlos Bumlai, amigo do petista.*
(*)  MURILO RAMOS – ÉPOCA

FINALMENTE, A ANTA FORA DO JOGO

Carmen Lúcia revogou a invencionice arrogante de Dilma

A ministra que comandará o STF rejeitou publicamente o tratamento de “presidenta”

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“Então eu concedo a palavra à eminente ministra Carmen Lúcia, nossa presidenta eleita…”, disse Ricardo Lewandowski na sessão do Supremo Tribunal Federal desta quarta-feira. A pausa ligeiríssima informou que Lewandowski estacionara numa dúvida. “Ou presidente?”, quis saber. Resposta de Carmen Lúcia: “Eu fui estudante e eu sou amante da língua portuguesa. Acho que o cargo é de presidente, não é não?”.
Claro que sim. Quem se curvou ao surto de arrogância de Dilma Rousseff, um poste que exigiu o tratamento de “presidenta” depois de instalado no Planalto por Lula,  é gente vocacionada para o servilismo, a subordinação medrosa, a vassalagem. Ao revogar o exotismo inventado pela presidente a caminho do desemprego, Carmen Lúcia confirmou que o STF, a partir de setembro, será comandado por uma grande ministra.
“É bom esclarecer desde logo, não é?”, conformou-se Lewandowski. Fez bem. Ficou muito claro que, além de restabelecer o uso das palavras certas, Carmen Lúcia vai restaurar a dignidade, a independência e a altivez que sempre orientaram sua trajetória ─ e que deveriam também balizar permanentemente o comportamento de quem preside a Corte Suprema.*
(*)  Blog do Augusto Nunes

A VIÚVA É RICA

 Obras nossas

O Brasil mostrou diante do mundo inteiro o relacionamento doentio que existe entre governos, construtoras, bancos estatais e políticos na hora de construir qualquer obra pública

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Está garantido que vai errar, sempre, quem disser que “o grande problema do Brasil” é este ou aquele, por mais tenebroso que seja. O Brasil, sendo o Brasil, não trabalha com essa mercadoria – “o grande problema”. Não há por aqui a possibilidade prática de separar uma calamidade bem definida ou mesmo duas, três ou meia dúzia que consigam ficar claramente acima de todas as demais em matéria de perversidade em estado puro. São tantas, e de índole tão ruim, que nossos melhores esforços para escolher uma prioridade capaz de inserir o Brasil no mundo desenvolvido, caso existissem, dariam bem pouco resultado no mundo das coisas reais. Bons tempos os da saúva, por exemplo, que nos fazia a gentileza de oferecer a qualquer momento a explicação comprovada para tudo o que dava errado neste país. Na verdade, era tão simples eleger na época “o grande problema” nacional que praticamente ninguém tinha dúvida: ou o Brasil acabava com a saúva, ou a saúva acabava com o Brasil. Vá tentar alguém, hoje em dia, dizer alguma coisa parecida. Só conseguirá produzir ruído de motor que não pega – e deixar todo mundo com a certeza de que falou bobagem. Melhor ficar quieto, e dar a impressão de que você não tem preparo para falar de assuntos sérios, do que abrir a boca e eliminar as dúvidas a respeito, como nos aconselhava Mark Twain.
Em certos momentos, porém, um desses “grandes problemas” que impedem o Brasil de ir adiante como deveria é exposto de maneira realmente espetacular, em plena luz do meio-dia – e em tais momentos é apenas lógico, além de humano, que a calamidade exibida na frente de todos chame mais atenção que quaisquer outras. É o caso, justo agora, da Olimpíada do Rio de Janeiro, que joga para o primeiro plano o problema fatal que o Brasil tem com as suas obras públicas. É de fato um fenômeno: fora as aberrações que acontecem nos países mais desgraçados do mundo, não há nada parecido com as misérias das obras públicas brasileiras. Quase nunca ficam prontas no prazo, com a qualidade e no preço que foram escritos no contrato – ou, pior ainda, como ocorre com alta frequência, não ficam prontas nunca. Há as que não podem ser usadas depois de entregues. Há as que simplesmente desabam; o Brasil deve ser um dos campeões mundiais em matéria de viadutos, pontes ou ciclovias elevadas que vêm abaixo de uma hora para outra. Há as que não servem para nada, como hospitais sem equipamento, açudes sem água ou museus para a recepção de extraterrestres. Todas produzem rigorosas investigações que não impedem que tudo continue igual na obra seguinte. São nossas obras. São obras nossas.
A Olimpíada do Rio, naturalmente, é uma celebração. Uma vez em andamento, o foco se concentra na magia do esporte – o público está mais interessado em Usain Bolt do que no prefeito Eduardo Paes, quer ver medalhas de ouro para os atletas brasileiros em vez de discutir os encanamentos da Vila Olímpica. Além disso, a cidade ganhou com os Jogos, de forma indiscutível, melhorias que enriquecem os seus extraordinários encantos, desde que não sejam abandonadas logo após o fim dos Jogos. Mas o fato é que o Brasil mostrou mais uma vez, diante do mundo inteiro, o relacionamento doentio que existe entre governos, construtoras de obras, bancos estatais, políticos, partidos e mais um monte de gente com carteirinha de autoridade na hora de construir qualquer obra pública – nada, simplesmente nada, é normal quando eles se juntam. É como se todos trocassem de personalidade. Quando uma empresa privada contrata uma empreiteira para a construção de um galpão com tantos metros quadrados de área e com tais ou quais itens de acabamento, vai receber exatamente o que contratou, não vai ter de pagar mais do que o combinado e receberá a obra pronta no dia previsto. Quando a mesma empreiteira faz uma obra para o poder público, tudo fica diferente – o poder público aceita qualquer absurdo em matéria de atraso, estouro no orçamento, qualidade da construção e por aí vai. É claro: o governo não paga nada, nunca, porque nada produz. Quem paga é o contribuinte de impostos, a quem não se permite um minuto de atraso na hora de pagar, e quem paga mais são justamente aqueles a quem o dinheiro faz mais falta.
A Olimpíada chegou no exato momento em que os processos de Curitiba expõem a corrupção e a inépcia sem freio que marcaram nos últimos treze anos de governo a contratação de obras e a compra de equipamentos públicos no Brasil. Ninguém, pelo jeito, aprendeu nada.*
(*) J.R. Guzzo – Veja.com

USEIROS E VEZEIROS EM GATUNAGENS

Faixa presidencial está desaparecida

Uma auditoria do TCU ocupa-se com a mais bizarra das heranças dos governos petistas: achar aquele paninho que atravessa o peito dos presidentes

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Se o impeachment de Dilma Rousseff for confirmado no fim de agosto, Michel Temer será empossado como o 37º presidente do Brasil e colocará no peito a… cadê a faixa presidencial? A mais bizarra auditoria de que se tem notícia está sendo realizada pelo Tribunal de Contas da União (TCU): encontrar o misterioso lugar em que está a faixa presidencial do Brasil. O TCU descobriu que 4 500 itens do patrimônio da Presidência da República estão sumidos. Ninguém sabe se foram surrupiados ou simplesmente extraviados. Entre os objetos estão obras de arte, utensílios domésticos, peças de decoração, material de escritório, computadores e, sim, a faixa presidencial. Que fim ela levou?
A novidade apareceu durante uma auditoria do TCU que tinha outra finalidade. Em março passado, a Operação Lava-Jato localizou um cofre numa agência bancária em São Paulo no qual o ex-presidente Lula guardava presentes recebidos durante os oito anos de Presidência. A lei determina que os presentes trocados entre chefes de Estado sejam incorporados ao patrimônio da União. Lula e Dilma, segundo os técnicos, desrespeitaram a regra. Entre 2003 e 2010, Lula recebeu 568 presentes. Pelos registros, deixou no Planalto só nove deles. Já Dilma recebeu 163 presentes. Apenas seis foram incorporados ao patrimônio público. O TCU sugeriu ampliar o sistema de fiscalização para impedir que futuros presidentes levem bens que deveriam ser públicos.
Entre os objetos extraviados, há computadores, equipamentos de segurança, peças da coleção de prataria palaciana, tapetes persas, porcelana chinesa, pinturas de artistas brasileiros. Apenas no Palácio da Alvorada, a residência oficial da Presidência, foi constatado o sumiço de 391 objetos. Já na Granja do Torto, uma espécie de casa de campo que fica à disposição dos presidentes, foram mais 114 bens. O prejuízo estimado chega a 5,8 milhões de reais: “Há clara negligência da Secretaria de Administração da Presidência da República na guarda dos bens patrimoniais”, diz o relatório elaborado pelo TCU.
Para comprovar as irregularidades apontadas na auditoria, o TCU procurou nos órgãos de controle de patrimônio e nos arquivos do Ministério das Relações Exteriores os registros de viagens oficiais dos presidentes ao exterior e de visitas de líderes mundiais ao Brasil. Com base em fotos e relatórios diplomáticos constataram-­se várias ocasiões em que os presentes recebidos por Lula e Dilma foram incorporados aos seus bens pessoais.*
(*) Robson Bonin – Veja.com
Fonte: http://www.contraovento.com.br/

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