terça-feira, 21 de setembro de 2010

ENTENDENDO A ORIGEM DO AXÉ


G1 lista 15 músicas para entender o axé e o carnaval baiano

Do frevo ao samba-reggae, conheça as raízes do estilo surgido há 25 anos.
E relembre sucessos como ‘Fricote’, ‘Swing da cor’ e 'Prefixo de verão'.
Amauri Stamboroski Jr.Do G1, em São Paulo

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Ivete Sangalo no carnaval de 2008: rainha do axé pop. (Foto: Divulgação)

Ritmo que muitas vezes se confunde com o próprio carnaval baiano, o axé music está comemorando os seus 25 anos com o aniversário de “Fricote”, hit de Luiz Caldas, que hoje é considerado o marco zero do gênero: “Olha a nêga do cabelo duro, que não gosta de pentear”...

O rótulo foi criado pelo crítico musical baiano Hagamenon Brito, dois anos depois, para dar conta da mistura de frevo elétrico, rock e ritmos caribenhos que estava ganhando as ruas de Salvador puxada por gente como Caldas, Sarajane e Gerônimo.

“Era uma brincadeira. Axé era como nós, da turma do rock, chamávamos os artistas de trio elétrico que achávamos mais bregas”, explica Brito em entrevista por telefone ao G1. Mas, a partir dos anos 90, a “brincadeira” começou a virar fenômeno nacional na voz de cantoras como Daniela Mercury e Ivete Sangalo e transformou para sempre a cara da folia soteropolitana.

“O gênero ‘carnavalizou’ Salvador e, desde então, por aqui é carnaval o ano inteiro. Não tem como escapar”, afirma Hagamenon, referindo-se à indústria musical criada pelo axé, que inclui as festas fora de época chamadas micaretas espalhadas por todo o Brasil. “Mas também não temos como negar que, mesmo tirando espaço de outros ritmos por um bom tempo, o axé ajudou a criar uma indústria cultural local. Hoje existem mais estúdios, vagas de trabalho para os músicos. Foi criado um mercado local consumidor de música”, reconhece o jornalista.
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Daniela Mercury nos anos 90: triunfo do axé. (Foto: Divulgação)

O impacto foi tão grande que, fora do Nordeste, muita gente continua a chamar de “axé” todo tipo de música que toca no carnaval de Salvador – o que é um equívoco. Existem diferentes ritmos dentro do carnaval baiano, desde o samba-reggae dos blocos afro como o Olodum até o pagode baiano de grupos como É o Tchan e o mais recente Parangolé, do hit “Rebolation”.

Para tentar esclarecer essas diferenças e entender melhor o próprio axé, o G1 preparou uma lista com 15 músicas que traçam as origens, influências e desdobramentos do gênero. A seleção foi feita com a ajuda de Brito e do livro “A trama dos tambores – A música afro-pop de Salvador”, de Goli Guerreiro.

A lista, claro, não é definitiva e não tem como objetivo abarcar toda a variedade de estilos e artistas que compõem a rica música baiana. Trata-se apenas de um guia para quem quiser conhecer um pouco mais sobre o gênero e fazer bonito na folia de Salvador.
Dodô e Osmar – “Vassourinha” (Anos 50)
O primeiro trio elétrico da Bahia foi criado pelos amigos Dodô e Osmar, sobre uma caminhonete chamada de Fobica. A trilha era instrumental, um frevo elétrico tocado usando guitarras rudimentares chamadas de “paus elétricos”. Mal sabiam que, do alto de seu Ford 1929, estariam dando vida a toda uma indústria e um novo jeito de pular carnaval.

Moraes Moreira – “Pombo correio” (1972)
O frevo elétrico era música puramente instrumental até que o ex-Novos Baianos Moraes Moreira resolveu subir em um trio elétrico para cantar. Ele é responsável por clássicos dos anos 70 do carnaval baiano, como “Pombo correio” e “Chame gente” – a última, mais tarde, virou o nome de seu bloco independente.
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Luiz Caldas nos anos 00, gravando novo álbum. (Foto: César Rasec/ Divulgação)

Luiz Caldas – “Fricote” (1985)
A música de Luiz Caldas é o marco zero da chamada axé music, misturando o som dos trios elétricos de Salvador com reggae e até algumas guitarras mais roqueiras. A faixa está no disco “Magia”, de 1985, e ajudou (ao lado de músicas de Gerônimo e Sarajane, a criar o gênero que impulsionaria a música de carnaval na Bahia nas décadas seguintes.

Olodum – “Faraó” (1987)
O Olodum é um dos blocos afro que ajudou a desenvolver o samba-reggae, estilo percussivo que influenciaria o axé a partir dos anos 90. “’Faraó’ foi um sucesso enorme e ajudou a colocar a música dos blocos afro nas rádios e na boca do povo”, lembra Hagamenon, citando ainda blocos como o Ilê Ayê e grupos com a banda Reflexus entre os nomes importantes no estilo.

Daniela Mercury – “Swing da cor” (1991)
Com Daniela Mercury, o axé deixou de ser música exclusiva do carnaval da Bahia e passou a dominar as rádios do país, ao lado do sertanejo e do pagode. Por outro lado, Hagamenon explica que “Daniela, ao lado de Margareth Menezes, sofisticou o axé, deu toques de MPB e criou até uma carreira internacional”.

Bamdamel – “Prefixo de verão” (1991)
“Ae, ae, ae, ae/ Êi, êi, êi, êi/ Ôôôôôôô”. A onomatopeia de abertura do maior hit da Bamdamel é um chiclete musical instantâneo, com a coreografia perfeita para
embalar o público dos trios elétricos. O grupo faz parte da tradição de trios e blocos assim como a Banda Beijo, a Banda Eva e a Banda Cheiro de Amor, que embalam o carnaval de Salvador há décadas.
Gera Samba / É o Tchan – “Melô do Tchan (Segura o Tchan)” (1995)
Muitas vezes desdenhado por causa de suas letras maliciosas de duplo sentido, o É o Tchan (surgido após a divisão do grupo Gera Samba) “levou o chamado pagode baiano para todo o país”, diz Hagamenon. Por outro lado, os inventores da “bunda music” de Carla Perez e Scheila Carvalho tinham uma boa formação: Compadre Washington era do grupo de pagode União do Samba, enquanto Beto Jamaica foi percussionista e letrista de blocos afro como Muzenza e Olodum.
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Carlinhos Brown medita antes do seu Sarau em Salvador. (Foto: Edgar de Souza / Divulgação)

Netinho – “Milla” (1996)
“Netinho é um nome muito importante, ele vendeu milhões de discos e foi uma das principais estrelas da época”, explica Hagamenon. O hit do ex-vocalista da Banda Beijo varreu o país inteiro, no auge das vendas de CDs do plano real, dentro do álbum “Ao vivo”. A faixa acabou sendo gravada em oito línguas diferentes, incluindo o russo.
Carlinhos Brown – “A namorada” (1996)
“Carlinhos é uma das personalidades mais importantes do carnaval da Bahia: compositor de hits anuais, criador da Timbalada e líder social no bairro do Candeal são só algumas das suas credenciais”, explica Hagamenon. Apesar de ser cantado na voz dos outros em alguns dos maiores hits do carnaval, a carreira solo de Brown é mais voltada para a MPB. Exceto por “A namorada”, que chegou a virar trilha sonora de filme em Hollywood.

Terra Samba – “Liberar geral” (1998)
O Terra Samba é outro exemplo de pagode baiano que fez muito sucesso no final da década de 90. “Por mais que as pessoas no Sul e Sudeste achem que não há diferença, são estilos separados. Hoje axé, com seus trios e micaretas caras é algo mais de classe média e o povo ouve mais pagode e arrocha”, explica Hagamenon.
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Bell Marques do Chiclete com Banana e sua estilosa bandana (Foto: Edgar de Souza/Divulgação)

Chiclete com Banana – “Cabelo raspadinho”(1999)
“O Chiclete com Banana é uma instituição do carnaval, eles existiam antes de Luiz Caldas”, conta Brito. O grupo liderado por Bell Marques (aquele da bandana) conseguiu criar um público fiel de seguidores que chamam a si mesmos de “chicleteiros” e acompanham a banda em micaretas por todo o país. “É como se eles fossem o Legião Urbana do axé”, brinca Hagamenon.

Ivete Sangalo – “Festa” (2001)
“Ivete é a grande popstar do axé”, sentencia Brito. Depois de virar estrela do carnaval com a Banda Eva, a cantora se arriscou e seu deu muito bem em sua carreira solo, com direito a DVD gravado no Maracanã. “A festa” é um bom exemplo do novo axé pop, com influências de black music, sem deixar a música baiana de fora.
Margareth Menezes – “Dandalunda”(2003)
“Uma lista dessas ficaria incompleta sem Margareth Menezes”, diz Hagamenon, com razão. Ao lado de Daniela Mercury, Margareth foi uma das principais cantoras a dar status de MPB ao axé. “Dandalunda”, composta por Carlinhos Brown, mostra a capacidade da cantora para se renovar, voltando a ser hit no carnaval em 2003, com quase 20 anos de carreira.

Babado Novo – “Amor perfeito” (2004)
Ressuscitando um sucesso romântico de Roberto Carlos, Claudia Leitte abriu as portas para o sucesso como celebridade. “É incrível que a personalidade dela parece tão importante quanto a música”, pondera Hagamenon. Novo patamar do axé pop, Cláudia frequenta com a mesma desenvoltura micaretas e revistas de fofoca.

Parangolé – “Rebolation” (2010)
Com o axé estagnando na hora de produzir novos nomes, os ouvidos no carnaval baiano se voltam a outros estilos. “Talvez seja o pagode baiano que vai trazer uma renovação para o carnaval”, diz Hagamenon, apontando o Parangolé, liderado pelo cantor Léo Santana, como o nome mais promissor para 2010.

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